segunda-feira, 13 de julho de 2020

13. SACRO IMPÉRIO ROMANO-GERMÂNICO


Historicamente, é difícil definir-se quando começou a supremacia do Bispo de Roma sobre as demais autoridades católicas, dando origem à hierarquia chamada “papado”. A Igreja Católica Romana tem uma lista ininterrupta partindo de Pedro até o atual Francisco. Shelley aponta como primeiro papa Leão I, aquele que, fora dos portões de Roma, negociou com Átila, o Huno, evitando a destruição da cidade na invasão bárbara, numa época em que o governo imperial já mostrava sinais de fraqueza. Durante toda a história do papado, houve nomes mais e menos importantes; vamos nos fixar nos destaques de maior importância histórica.

No final do século sexto, Gregório, o grande, assumiu o papado numa época de grandes problemas. A Europa tinha sido devastada pela peste e ressurgia como uma fênix das ruínas de um império devastado, com o Cristianismo dando vida e ordem ao caos. Gregório não foi um teólogo profundo, mas reforçou muita das heterodoxias católicas já existentes: a penitência, a intermediação dos santos, as relíquias sagradas, o purgatório, a missa pelos que haviam morrido passaram a ter uma aceitação maior na igreja a partir do seu papado. Apesar de um início relutante, com uma vida piedosa e como nenhum outro papa anterior, ele governou a igreja e o mundo como o último estadista romano; ele tinha grande habilidade executiva, aliada à solidariedade pelas necessidades humanas. Roma estava em uma transição: tinha sido a cidade dos césares e se tornaria a cidade dos papas. Entre outros atos, Gregório enviou Agostinho para evangelizar a Inglaterra.

Apesar de exercerem grande poder e influência em todos os setores e atividades, os papas ainda eram submissos ao imperador, que era considerado o verdadeiro chefe da igreja. Esta situação persistiu até a eleição de um outro Gregório, o sétimo na hierarquia. Antes da coroação desse papa, os poderes espiritual e temporal (Igreja e Estado) estiveram indissoluvelmente unidos, com o segundo dominando o primeiro. Hildebrando foi eleito papa em 1.073, com o título de Gregório VII, numa época de situação confusa na Igreja: Papas controvertidos e com pontificados de curta duração o antecederam. Gregório VII implantou um programa de reformas que mudou radicalmente a relação existente entre a Igreja e a aristocracia até então praticada. O legado de Gregório VII para a Igreja seria uma época de ascendência do papado, que perduraria por toda a Idade Média. No princípio os imperadores romanos dominavam a Igreja e, as questões religiosas. Com o passar dos tempos houve um equilíbrio de poder, quando o predomínio era ocasional, dependendo da influência pessoal e da capacidade de cada papa ou imperador. Depois do papa Gregório VII, entretanto, a balança do poder pendeu para Roma, que dominou absoluta sobre os reis da terra. A partir dele, o título de Sumo Pontífice, antes exclusivo dos imperadores, passou a ser ostentado pelo bispo de Roma, situação mantida até hoje. Gregório VII, inaugurou uma era de poder sem precedentes ao papado, confrontando o espiritual e colocando-o acima do temporal. Duas armas estavam na mão do Papa para manter os príncipes e camponeses sob sua liderança na Idade Média: a excomunhão, que expulsava da igreja os infiéis deixando-os, segundo criam, sem salvação; o interdito, que suspendia as venerações públicas e retirava o sacramento de algumas regiões, mantendo apenas o batismo e a extrema-unção. Gregório tinha como ideal a criação de uma nação cristã sob o controle papal, onde o poder espiritual era supremo em relação ao poder temporal dos reis. O episódio marcante que ilustra tudo isso foi o do Imperador Henrique IV, excomungado por Gregório, humilhado diante dele, pedindo clemência e descalço na neve. "O sucessor de Pedro é o Vigário de Cristo: ele foi escolhido como um mediador entre Deus e o homem, abaixo Deus, mas além do homem; menos que Deus, mas mais que o homem; quem deverá julgar a todos e ser julgado apenas por um". Assim via Gregório seu relacionamento com os demais seres humanos, incluídos aí os imperadores. Com a implantação do Sacro Império Romano-Germânico, no século VIII, lentamente, os papas foram assumindo o poder, até que Inocêncio III ensinou à Europa a pensar nos papas como governantes universais.

O Grande Cisma do Papado, ou Cativeiro Babilônico, corresponde a um período de 72 anos, de 1378 a 1417, no qual Roma na Itália e Avignon na França dividiram o Catolicismo Romano em duas sedes diferentes, com dois papas e, em determinada situação, até mesmo três. Isso enfraqueceu ainda mais a estrutura da igreja.

Afirma o historiador Earl Cairns: “Cria-se que Cristo e os santos tinham alcançado tanto mérito durante suas vidas terrenas que o excedente estava guardado no tesouro celestial do mérito, de onde o papa poderia sacar no interesse dos fieis vivos. Isso foi formulado primeiramente por Alexandre de Hale no século XIII. Clemente VI declarou-o dogma em 1434”. A crença no tesouro celestial do mérito, bem como numa de suas chaves, a indulgência, foram práticas católicas que se intensificaram com a construção da Basílica de São Pedro, em Roma, nos séculos XV e XVI, que acabaram por provocar a Reforma Protestante, num período de extrema vulnerabilidade do Papado de Roma. 

14. ASCENSÃO E QUEDA DO PAPADO

Historicamente, é difícil definir-se quando começou a supremacia do Bispo de Roma sobre as demais autoridades católicas, dando origem à hierarquia chamada “papado”. A Igreja Católica Romana tem uma lista ininterrupta partindo de Pedro até o atual Francisco. Shelley aponta como primeiro papa Leão I, aquele que, fora dos portões de Roma, negociou com Átila, o Huno, evitando a destruição da cidade na invasão bárbara, numa época em que o governo imperial já mostrava sinais de fraqueza. Durante toda a história do papado, houve nomes mais e menos importantes; vamos nos fixar nos destaques de maior importância histórica.

No final do século sexto, Gregório, o grande, assumiu o papado numa época de grandes problemas. A Europa tinha sido devastada pela peste e ressurgia como uma fênix das ruínas de um império devastado, com o Cristianismo dando vida e ordem ao caos. Gregório não foi um teólogo profundo, mas reforçou muita das heterodoxias católicas já existentes: a penitência, a intermediação dos santos, as relíquias sagradas, o purgatório, a missa pelos que haviam morrido passaram a ter uma aceitação maior na igreja a partir do seu papado. Apesar de um início relutante, com uma vida piedosa e como nenhum outro papa anterior, ele governou a igreja e o mundo como o último estadista romano; ele tinha grande habilidade executiva, aliada à solidariedade pelas necessidades humanas. Roma estava em uma transição: tinha sido a cidade dos césares e se tornaria a cidade dos papas. Entre outros atos, Gregório enviou Agostinho para evangelizar a Inglaterra.

Apesar de exercerem grande poder e influência em todos os setores e atividades, os papas ainda eram submissos ao imperador, que era considerado o verdadeiro chefe da igreja. Esta situação persistiu até a eleição de um outro Gregório, o sétimo na hierarquia. Antes da coroação desse papa, os poderes espiritual e temporal (Igreja e Estado) estiveram indissoluvelmente unidos, com o segundo dominando o primeiro. Hildebrando foi eleito papa em 1.073, com o título de Gregório VII, numa época de situação confusa na Igreja: Papas controvertidos e com pontificados de curta duração o antecederam. Gregório VII implantou um programa de reformas que mudou radicalmente a relação existente entre a Igreja e a aristocracia até então praticada. O legado de Gregório VII para a Igreja seria uma época de ascendência do papado, que perduraria por toda a Idade Média. No princípio os imperadores romanos dominavam a Igreja e, as questões religiosas. Com o passar dos tempos houve um equilíbrio de poder, quando o predomínio era ocasional, dependendo da influência pessoal e da capacidade de cada papa ou imperador. Depois do papa Gregório VII, entretanto, a balança do poder pendeu para Roma, que dominou absoluta sobre os reis da terra. A partir dele, o título de Sumo Pontífice, antes exclusivo dos imperadores, passou a ser ostentado pelo bispo de Roma, situação mantida até hoje. Gregório VII, inaugurou uma era de poder sem precedentes ao papado, confrontando o espiritual e colocando-o acima do temporal. Duas armas estavam na mão do Papa para manter os príncipes e camponeses sob sua liderança na Idade Média: a excomunhão, que expulsava da igreja os infiéis deixando-os, segundo criam, sem salvação; o interdito, que suspendia as venerações públicas e retirava o sacramento de algumas regiões, mantendo apenas o batismo e a extrema-unção. Gregório tinha como ideal a criação de uma nação cristã sob o controle papal, onde o poder espiritual era supremo em relação ao poder temporal dos reis. O episódio marcante que ilustra tudo isso foi o do Imperador Henrique IV, excomungado por Gregório, humilhado diante dele, pedindo clemência e descalço na neve. "O sucessor de Pedro é o Vigário de Cristo: ele foi escolhido como um mediador entre Deus e o homem, abaixo Deus, mas além do homem; menos que Deus, mas mais que o homem; quem deverá julgar a todos e ser julgado apenas por um". Assim via Gregório seu relacionamento com os demais seres humanos, incluídos aí os imperadores. Com a implantação do Sacro Império Romano-Germânico, no século VIII, lentamente, os papas foram assumindo o poder, até que Inocêncio III ensinou à Europa a pensar nos papas como governantes universais.

O Grande Cisma do Papado, ou Cativeiro Babilônico, corresponde a um período de 72 anos, de 1378 a 1417, no qual Roma na Itália e Avignon na França dividiram o Catolicismo Romano em duas sedes diferentes, com dois papas e, em determinada situação, até mesmo três. Isso enfraqueceu ainda mais a estrutura da igreja.

Afirma o historiador Earl Cairns: “Cria-se que Cristo e os santos tinham alcançado tanto mérito durante suas vidas terrenas que o excedente estava guardado no tesouro celestial do mérito, de onde o papa poderia sacar no interesse dos fieis vivos. Isso foi formulado primeiramente por Alexandre de Hale no século XIII. Clemente VI declarou-o dogma em 1434”. A crença no tesouro celestial do mérito, bem como numa de suas chaves, a indulgência, foram práticas católicas que se intensificaram com a construção da Basílica de São Pedro, em Roma, nos séculos XV e XVI, que acabaram por provocar a Reforma Protestante, num período de extrema vulnerabilidade do Papado de Roma. 

15. A CRUZ E O CRESCENTE

O século XII é a época da construção de grandes catedrais e do início das universidades. A versão arquitetônica das catedrais alia a razão humana (que busca os céus com seus arcos, pilares e camarários, buscando se elevar até o divino) com a luz de Deus (que desce para encontrar o homem, penetrando nas catedrais através das janelas coloridas de vidro chumbado). Escolas que existiam nas catedrais deram origem às universidades, revelando fome de conhecimento da vontade de Deus.

O século começa com grandes nomes de intelectuais, como Gerbert (posteriormente Papa Silvestre II), Pedro Abelardo, Bernardo de Clairvaux, até que, menos de um século depois, surgem as Universidades: de Paris, Orleans e Montpellier na França; Oxford e Cambridge na Inglaterra; Pádua e Bolonha na Itália. Eram inicialmente universidades sem "campus", que mudavam de endereço constantemente, usando como método didático o debate, perguntas e respostas, sugeridas pelo "Sic et Non", obra de Abelardo.

O escolasticismo buscava conciliar as doutrinas cristãs com a razão humana e organizar os ensinamentos da igreja. Viver "religiosamente de maneira estudiosa" foi a marca da educação medieval. Começando com os mosteiros beneditinos, passando por Carlos Magno, chegamos aos mestres escolares, no início de revolução intelectual que passa por Pedro Abelardo e chega a Tomás de Aquino; este pensador organizou os ensinamentos tradicionais da igreja numa grande estrutura, quase cósmica, objetivando com seu sistema uma perfeita harmonia entre as aspirações do homem e a luz da verdade de Deus.

Desenvolvendo-se nesse contexto intelectual medieval, o escolasticismo chegou a conclusões lógicas por meio de questionamento, exame e organização de detalhes dentro de um sistema lógico. O direito canônico estava para igreja, assim como o direito civil para o governo secular. O direito canônico estabeleceu os direitos, deveres e poderes de todas as autoridades da Igreja. Bolonha, na Itália, foi o centro de estudo do direito, tanto o civil romano quanto o canônico; foi o local onde trabalhou Graciano, autor de "A Concordância dos Cânones Discordantes", em 1140. Usando o direito canônico, Inocêncio III (o "Vigário de Cristo"), na sua consagração, baseou-se em Jeremias 1.10, que afirma: “Eu hoje dou a você autoridade sobre nações e reinos, para arrancar, despedaçar, arruinar e destruir; para edificar e plantar”. Com isso, tornou-se o papa de maior poder e influência de toda a Idade Média.

Difundidos no meio intelectual ocidental da época pelos árabes, Aristóteles (filósofo grego da antiguidade), Averróes (filósofo muçulmano) e Maimônides (filósofo judeu) espalhavam ceticismo na Universidade de Paris no século XIII; Tomás de Aquino (1224-1274) foi enviado da Itália para Paris. Ele era um monge dominicano “de mente brilhante, atividade incansável e disposição afável”, segundo Shelley. Aquino considerava a razão como o maior dos atributos humanos, demonstrando erudição e fidelidade à igreja. Assim sendo, ele examinou os escritos dos filósofos e reputou pontos, reconciliou outros com o Cristianismo, e  de seus estudos resultou sua maior obra, a "Suma Teológica", um resumo do conhecimento sobre Deus e sua Igreja. Nela ele faz distinção entre filosofia e teologia, entre razão e revelação.  Afirma não haver contradição entre elas, já que ambas são fontes de conhecimento e vêm do mesmo Deus. Segundo Aquino, a diferença entre elas está no método de busca da verdade. A razão pode provar a existência de Deus, o criador; a revelação nos leva ao conhecimento de Deus. Cristo obteve a graça da salvação, a igreja a comunica. A graça salvadora chega o homem pelo canal dos sacramentos divinos, sendo o Sacramento dos sacramentos a Ceia do Senhor com a transubstanciação. O pecado leva à contrição (dor pelo pecado), que leva a confissão ao sacerdote (médico espiritual), que aplica o remédio adequado e a absolvição. Finalmente vem a satisfação no ato de penitência. Aquino aceitava a indulgência e o "tesouro de méritos".

É possível conciliar razão e fé? O escolasticismo tentou discutir esse tema e encontrar explicações racionais para a fé que professavam os cristãos medievais, buscando harmonizá-la com a razão.


16. ESCOLASTICISMO

O século XII é a época da construção de grandes catedrais e do início das universidades. A versão arquitetônica das catedrais alia a razão humana (que busca os céus com seus arcos, pilares e camarários, buscando se elevar até o divino) com a luz de Deus (que desce para encontrar o homem, penetrando nas catedrais através das janelas coloridas de vidro chumbado). Escolas que existiam nas catedrais deram origem às universidades, revelando fome de conhecimento da vontade de Deus.

O século começa com grandes nomes de intelectuais, como Gerbert (posteriormente Papa Silvestre II), Pedro Abelardo, Bernardo de Clairvaux, até que, menos de um século depois, surgem as Universidades: de Paris, Orleans e Montpellier na França; Oxford e Cambridge na Inglaterra; Pádua e Bolonha na Itália. Eram inicialmente universidades sem "campus", que mudavam de endereço constantemente, usando como método didático o debate, perguntas e respostas, sugeridas pelo "Sic et Non", obra de Abelardo.

O escolasticismo buscava conciliar as doutrinas cristãs com a razão humana e organizar os ensinamentos da igreja. Viver "religiosamente de maneira estudiosa" foi a marca da educação medieval. Começando com os mosteiros beneditinos, passando por Carlos Magno, chegamos aos mestres escolares, no início de revolução intelectual que passa por Pedro Abelardo e chega a Tomás de Aquino; este pensador organizou os ensinamentos tradicionais da igreja numa grande estrutura, quase cósmica, objetivando com seu sistema uma perfeita harmonia entre as aspirações do homem e a luz da verdade de Deus.

Desenvolvendo-se nesse contexto intelectual medieval, o escolasticismo chegou a conclusões lógicas por meio de questionamento, exame e organização de detalhes dentro de um sistema lógico. O direito canônico estava para igreja, assim como o direito civil para o governo secular. O direito canônico estabeleceu os direitos, deveres e poderes de todas as autoridades da Igreja. Bolonha, na Itália, foi o centro de estudo do direito, tanto o civil romano quanto o canônico; foi o local onde trabalhou Graciano, autor de "A Concordância dos Cânones Discordantes", em 1140. Usando o direito canônico, Inocêncio III (o "Vigário de Cristo"), na sua consagração, baseou-se em Jeremias 1.10, que afirma: “Eu hoje dou a você autoridade sobre nações e reinos, para arrancar, despedaçar, arruinar e destruir; para edificar e plantar”. Com isso, tornou-se o papa de maior poder e influência de toda a Idade Média.

Difundidos no meio intelectual ocidental da época pelos árabes, Aristóteles (filósofo grego da antiguidade), Averróes (filósofo muçulmano) e Maimônides (filósofo judeu) espalhavam ceticismo na Universidade de Paris no século XIII; Tomás de Aquino (1224-1274) foi enviado da Itália para Paris. Ele era um monge dominicano “de mente brilhante, atividade incansável e disposição afável”, segundo Shelley. Aquino considerava a razão como o maior dos atributos humanos, demonstrando erudição e fidelidade à igreja. Assim sendo, ele examinou os escritos dos filósofos e reputou pontos, reconciliou outros com o Cristianismo, e  de seus estudos resultou sua maior obra, a "Suma Teológica", um resumo do conhecimento sobre Deus e sua Igreja. Nela ele faz distinção entre filosofia e teologia, entre razão e revelação.  Afirma não haver contradição entre elas, já que ambas são fontes de conhecimento e vêm do mesmo Deus. Segundo Aquino, a diferença entre elas está no método de busca da verdade. A razão pode provar a existência de Deus, o criador; a revelação nos leva ao conhecimento de Deus. Cristo obteve a graça da salvação, a igreja a comunica. A graça salvadora chega o homem pelo canal dos sacramentos divinos, sendo o Sacramento dos sacramentos a Ceia do Senhor com a transubstanciação. O pecado leva à contrição (dor pelo pecado), que leva a confissão ao sacerdote (médico espiritual), que aplica o remédio adequado e a absolvição. Finalmente vem a satisfação no ato de penitência. Aquino aceitava a indulgência e o "tesouro de méritos".

É possível conciliar razão e fé? O escolasticismo tentou discutir esse tema e encontrar explicações racionais para a fé que professavam os cristãos medievais, buscando harmonizá-la com a razão.

17. CATOLICISMO E FEUDALISMO


A Europa começou a povoar-se de castelos fortificados após a invasão dos povos germânicos, acentuando-se a tendência para a formação dos feudos. O feudo era uma grande propriedade rural que abrigava o castelo fortificado, as aldeias, as terras para cultivo, os pastos e os bosques.

O Feudalismo foi uma organização econômica, política, social e cultural baseada na posse da terra, que predominou na Europa Ocidental durante a Idade Média. Na sociedade feudal havia três estamentos sociais: nobreza, clero e servos. O nobre protegia militarmente a sociedade, o clero rezava e o servo trabalhava. No topo da hierarquia social, o rei, com pouco poder político, dividia-o com os senhores feudais. A nobreza era proprietária de terras, exercendo poder absoluto em seus domínios, onde aplicava as leis, concedia privilégios, administrava a justiça, declarava a guerra e fazia a paz. A Igreja se tornou a mais poderosa instituição feudal, pois era proprietária de vastas extensões de terra. Os servos estavam presos à terra e subordinados a uma série de impostos e serviços.

A Igreja Católica foi uma das instituições mais importantes e poderosas do período feudal; indo além da função de evangelizar, ela exercia uma forte influência na política e nas relações sociais. Os membros mais elevados do clero, como os bispos, viviam entre os nobres. Toda família nobre deveria enviar um filho para que seguisse a carreira eclesiástica, sendo tudo naquele período regulado pela religião. No período feudal, a igreja já dispunha de uma hierarquia, com o comando nas mãos do Papa e as divisões internas estabelecendo o alto e o baixo clero.

Com papel preponderante na formação do feudalismo, a Igreja Católica, além de grande proprietária de terras, estruturou a visão de mundo do homem medieval. Na realidade, foi a instituição que sobreviveu às inúmeras mudanças ocorridas na Europa do século V e, ao promover a evangelização dos bárbaros, concretizou a simbiose entre o mundo romano e o bárbaro. Tornou-se ela herdeira da cultura clássica, monopolizando o conhecimento no universo medieval. Sua estrutura fortemente hierarquizada colaborou para que ela ultrapassasse todas as crises, concentrando o saber e o poder. Internamente havia uma divisão entre o alto clero, membros da nobreza que exerciam cargos de direção, e o baixo clero, composto por pessoas originárias dos seguimentos mais pobres da população. O comando de toda essa estrutura lentamente concentrou-se nas mãos do bispo de Roma, que se tornou papa a partir do século V.

Para cumprir a missão de evangelização dos reinos bárbaros entre os séculos V e VII, parte do clero passou a conviver com os fiéis, constituindo o baixo clero, ou clero secular, afastado dos mosteiros. Com o passar do tempo, parte dos religiosos se vinculou aos aspectos temporais e materiais do mundo medieval, assimilando hábitos, interesses, relações, valores e costumes dos homens comuns e afastando-se das origens doutrinárias e religiosas. Paralelamente ao clero secular surgiu o clero regular, formado por monges que serviam a Deus vivendo afastados do mundo material, recolhidos em mosteiros. Os mosteiros acabaram se tornando o centro da vida cultural e intelectual da Idade Média, cumprindo funções econômicas e políticas importantes.

Entre os séculos XI e XIII, a Igreja viveu diversas crises e mudanças. Surgiram movimentos que questionavam alguns dogmas cristãos e por isso foram considerados heréticos.  Os cátaros, valdenses, patarinos, entre outros, condenavam a riqueza da Igreja e não se submetiam à autoridade do papa. Organizou-se então o Tribunal do Santo Ofício, no século XII, a temível Inquisição. Dessa crise surgiu uma reforma na Igreja Católica, promovida pelo papa Gregório IX, no século XI. Entre os pontos fundamentais, estabeleceu-se que os senhores feudais não poderiam mais nomear os bispos de sua região.

Na própria Igreja também existiam movimentos contrários ao seu envolvimento nas questões materiais e ao uso da violência contra os hereges. Eram os franciscanos e dominicanos, que pregavam voto de pobreza e por isso eram conhecidos como ordens mendicantes, que se misturavam ao povo, procurando demonstrar a vida pobre e sacrificada do cristão. No entanto, eles foram incapazes de realizar a moralização definitiva da Igreja. Toda movimentação contra as interferências da Igreja Católica no mundo material, iniciada na Idade Média, acabou originando a Reforma Protestante.

Tornado religião oficial do império Romano a partir de Teodósio, ampliando e solidificando seu domínio com as migrações bárbaras, o Cristianismo, através da Igreja, transformou-se no maior proprietário de feudos na Idade Média, ampliando seu poder econômico, político e social. Detentora também do poder espiritual, a Igreja influenciou o pensamento, a psicologia e as formas de comportamento na Idade Média.

18. ASCENSÃO, QUEDA E REFORMA DOS MOSTEIROS


Shelley afirma: "A visão de Inocêncio III do Cristo soberano que governava, por meio de seu Vigário todas as nações, todo o conhecimento e toda graça nesta vida e na futura, encontrou um formidável rival na imagem do Salvador, que disse que as raposas têm tocas, os pássaros do céu têm ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde deitar sua cabeça. Onde, afinal, está o verdadeiro Cristianismo? Em uma instituição sacramental ou num estilo de vida de abnegação?" O evangelho da pobreza voluntária ganhou força por causa do ressentimento contra o sacerdócio corrupto e negligente. Houve na Idade Média apelos para a reforma monástica: Arnaldo de Bréscia, no norte da Itália, e Pedro Valdo, rico comerciante de Lyon, na França, queriam purificar a igreja pelo retorno à vida simples dos apóstolos.
Stephen Neill divide a história missionária da Idade Média, com o protagonismo dos mosteiros, em dois períodos de 500 anos. No primeiro período, os monges agiram atraindo os bárbaros para o cristianismo; no segundo período, Patrício na Irlanda, Bonifácio na Alemanha, Cirilo e Metódio nas regiões eslavas tornaram verdadeiras as palavras "cruce, libro et atro" (cruz, livro e arado), resumo da atividade evangelística dos monges em seus mosteiros; as novas ordens mendicantes transformaram europeus cristãos nominais em genuínos seguidores de Cristo. A preservação dos textos seculares e cristãos foi tarefa dos mosteiros, como o Vivarium, um tipo de organização amplamente imitado. Além disso, a ordem franciscana liderou a tarefa de oferecimento de abrigo aos viajantes e de assistência aos enfermos.

As maiores ordens monásticas a partir dos Beneditinos de Bento de Núrcia e das Ordens de Cavaleiros foram:

·        A dos Cluniacenses, em Cluny, na França, resultado de uma reforma da Ordem Beneditina;

·        a dos Cistercienses, em Citeaux, na França, também seguindo a mesma ordem;

·        a dos Agostinianos, Ordem surgida como mendicante, seguindo as regras de Agostinho;

·        a dos Dominicanos, de Domingos Gusmão na Espanha, seguindo a mesma orientação agostiniana, que acabou conduzindo a inquisição;

·        a dos Franciscanos, de Francisco de Assis, na Itália, com regra original extraída das Escrituras, fazendo votos de pobreza absoluta;

·        e a Sociedade de Jesus, os Jesuítas, já na era da Reforma, formada por Inácio de Loyola, em Roma, na Itália.

Além das citadas, outras ordens existiram, de menor importância histórica.

Concluindo o assunto, a vida celibatária e ascética não é intrinsecamente mais piedosa do que a vida conjugal e social para o cristão. No entanto, por dez séculos, os monges, quase sozinhos, sustentaram o que havia de mais nobre e mais cristão na Igreja, embora de forma por vezes imperfeita. Bento de Núrcia, e mais que ele sua Regra, demonstra por sua biografia que o homem de Deus não poderia ter ensinado qualquer coisa sem antes a ter vivido.

19. A GUERRA SANTA


O islamismo é uma das principais religiões do mundo, sendo muito popular na África, Ásia e está em franco crescimento na América do Norte e na Europa. É atualmente a segunda maior religião do planeta, com quase dois bilhões de fiéis espalhados nos cinco continentes. Seu surgimento remonta ao século VII por meio da ação do profeta Maomé. É uma religião monoteísta, crendo em Alá. “Islã” significa submissão, termo derivado de “salam” (paz) e muito parecido com o shalom judaico. “Muslim”, palavra árabe que significa submisso, dá origem a muçulmano. O surgimento do islamismo aconteceu no começo do século VII por meio das ações de Maomé, o grande profeta do islã, após. Segundo creem, revelação por meio do anjo Gabriel.

Os cinco pilares do Islamismo são:

·        Recitação da shahadah: “não existe nenhum deus além de Alá e Maomé é seu profeta”.

·        Cinco orações diárias voltando-se para a direção de Meca.

·        Jejum obrigatório durante o período do Ramadã.

·        Doação de 2,5% de seus lucros para as pessoas mais pobres.

·        Visitação de Meca ao menos uma vez na vida.

A palavra árabe "jihad" é traduzida como "guerra santa". Façamos uma comparação entre a guerra santa, promovida nas Cruzadas cristãs, e a chamada jihad dos muçulmanos. Vamos nos basear em dois fatos históricos: a primeira conquista muçulmana nos séculos VII e VIII e as Cruzadas dos cristãos ocorrida nos séculos XII e XIII.
A jihad muçulmana começou com a morte de Maomé em 633 e terminou na batalha de Tours em 732; as cruzadas aconteceram a partir do Concílio de Clermont, em 1095, indo até a queda da cidade de Acre, em 1291. 
O motivo da jihad era espalhar a verdadeira fé entre os infiéis; as cruzadas buscavam proteger os peregrinos e a glória de Deus e recapturar os lugares santos da Cristandade das mãos dos turcos e infiéis, também muçulmanos. O incentivo oferecido pela jihad era a entrada imediata no paraíso, prometida aos que morressem; as cruzadas prometiam indulgência plena, ou seja, perdão dos pecados passados, presentes e futuros; para os que morressem, entrada imediata no céu; para os outros participantes, perdão das dívidas e isenção dos impostos.

A jihad tratava os inimigos exigindo que os pagãos se convertessem, se não seriam mortos; judeus e cristãos tinham ocasionalmente permissão de conservar a religião, mas eram obrigados a pagar tributo, abstendo-se de praticar o proselitismo. Nas Cruzadas, os muçulmanos capturados foram mortos indiscriminadamente à espada e os habitantes e guetos judeus foram assassinados.

Como resultado da jihad, Palestina, Síria, Ásia Menor, Egito, Norte da África e Espanha foram subjugados; a língua grega foi preservada pelo restante da Idade Média. Como resultado das Cruzadas, não houve conquista permanente de território; as culturas greco-romanas clássicas foram redescobertas, houve crescente inimizade entre a Igreja Oriental e a Ocidental, bem como entre cristãos, judeus e muçulmanos. A comparação feita mostra que qualquer que seja o extremismo, cristão, ou muçulmano, ou de qualquer outra natureza, ele deve ser evitado, pois o resultado final após o conflito gerado é muito parecido de lado a lado, ou a desgraça é gerada em qualquer circunstância.

20. HETERODOXIAS CATÓLICAS

“Mas ainda que nós, ou um anjo dos céus, pregue um evangelho diferente daquele que lhes pregamos, que seja amaldiçoado!” Estas palavras fortes ditas por Paulo aos gálatas, com aplicação também em outras igrejas por ele acompanhadas, refletem a dificuldade da manutenção da fidelidade à primitiva ortodoxia da Igreja Apostólica do primeiro século, ao sair ela de Jerusalém e se confrontar com religiões, filosofias, culturas e costumes diferentes de povos participantes do Império Romano. Após quinze séculos, foi longo o rol de heterodoxias introduzidas de maneira dogmática na Igreja Cristã pelo Catolicismo de Roma, descaracterizando a mensagem pregada pelo Salvador e proclamada por seus seguidores. Vamos citar apenas os mais importantes.  

Os desvios das heterodoxias católicas parecem ter começado pelas preces para os mortos e pelo sinal da cruz, ambos no terceiro século da Era Cristã.  Na mesma época foram introduzidas as velas de parafina na igreja, vindo com elas a veneração aos anjos e santos mortos por volta do 4º século. A adoração a Maria, mãe de Jesus, com o uso do termo “Mãe de Deus” aplicado a ela, foi aprovada no Concílio de Éfeso, em 431.  A vestimenta diferente dos padres foi introduzida no início do século VI, bem como a doutrina do purgatório, estabelecida por Gregório, o Grande, no final do mesmo século. O latim como língua das orações e dos cultos nas igrejas foi imposto pelo Papa Gregório I na mesma época.

Roma e as demais cidades importantes do início da história da Igreja (como Antioquia, Alexandria, Cartago e outras) tinham seus bispos titulares. O papado com centralização no Bispo de Roma surgiu ainda sem definição histórica, já que Shelley aponta Leão I, em 440, como o primeiro papa a ser assim considerado. O costume pagão de beijar os pés de imperadores, que passou a ser utilizado como ritual diante do papa. A veneração da cruz, de imagens e relíquias foi autorizada por volta do século VIII, bem como o uso da “Água Benta”, misturada com uma pitada de sal e abençoada pelo padre. A canonização dos santos mortos foi feita inicialmente pelo Papa João XV. Jejuar às sextas-feiras e durante as quaresmas foram tradições impostas pelos papas, que se disseram interessados pelo comércio de peixe.

Por volta do ano 1000, a missa foi desenvolvida gradualmente como um sacrifício e passou a ser obrigatória no Século XI. O celibato do sacerdócio foi decretado no Concilio de Latrão em 1139. O rosário, ou o terço de oração, foi introduzido por Pedro, o Eremita, no ano de 1090, tendo sido copiado de hindus e muçulmanos. A inquisição dos hereges foi instituída pelo Concílio de Verona, no ano de 1184. A venda de indulgências, usualmente considerada como a compra do perdão que permite indultar o pecado, começou no século XII, no final do qual foi decretado o dogma da transubstanciação, pelo Papa Inocêncio III. A confissão dos pecados ao padre, uma vez ao ano, foi instituída pelo Papa Inocêncio III, no Concílio Laterano, no século XIII. No mesmo século, foi decretada a adoração à hóstia pelo Papa Honório. Ainda no mesmo século, a proibição da leitura da Bíblia aos leigos e a sua inclusão na lista de livros proibidos foi decisão do Concílio de Valência. No século XIV, a Igreja Romana proibiu o cálice aos fiéis, instituindo o recebimento apenas da hóstia no Concílio de Constância. No século XV, foi aprovada a doutrina dos 7 Sacramentos. A oração da Ave Maria foi aprovada pelo Papa Sixtus V, ao final do Século XVI.

O Concílio de Trento, de 1545, declarou que a tradição tem autoridade igual à Bíblia. No mesmo conclave foram incluídos à Bíblia os livros apócrifos, que não foram reconhecidos como canônicos pela Igreja primitiva. A Concepção Imaculada da Virgem Maria foi proclamada pelo Papa Pio IX. No ano 1870, o Papa Pio IX proclamou o dogma da infalibilidade papal, condenando o “Modernismo”, bem como todas as descobertas da ciência moderna, as quais não eram aprovadas pelas Igreja. Condenou ainda as Escolas Públicas e reafirmou a doutrina de Maria como “Mãe de Deus”. No ano de 1950, o dogma da assunção da Virgem Maria aos céus foi proclamado pelo Papa Pio XII.

A Igreja Católica Apostólica Romana tem criado e adaptado doutrinas contrárias à Bíblia, praticando ritos e cerimonias que claramente vieram de paganismo na sua grande maioria. Textos bíblicos contrariam tais crenças e dogmas: No passado surgiram falsos profetas no meio do povo, como também surgirão entre vocês falsos mestres. Estes introduzirão secretamente heresias destruidoras, chegando a negar o Soberano que os resgatou, trazendo sobre si mesmos repentina destruição. Muitos seguirão os caminhos vergonhosos desses homens e, por causa deles, será difamado o caminho da verdade” (II Pedro 2:1-2). “O Espírito diz claramente que nos últimos tempos alguns abandonarão a fé e seguirão espíritos enganadores e doutrinas de demônios” (I Timóteo 4:1). “Respondeu Jesus: ‘E por que vocês transgridem o mandamento de Deus por causa da tradição de vocês? Em vão me adoram; seus ensinamentos não passam de regras ensinadas por homens” (Mateus 15:3,9). 

21. A REFORMA SE PRENUNCIA


"Os sistemas humanos nascem, florescem e declinam porque os processos do tempo têm seu próprio julgamento.  Instituições que à primeira vista parecem meritórias, muitas vezes transformam-se em ruínas porque o tempo se encarrega de mostrar suas falhas" (Herbert Butterfield). Foi o que ocorreu no final da Idade Média com o papado e o seu legado religioso. "Avignon" e "o Grande Cisma " revelaram o abuso do poder: com o tempo, a natureza humana transforma o que é bom em algo abusivo. O francês Pedro Valdo, o inglês John Wyclif e o tcheco Jan Hus denunciaram um abuso de poder do Catolicismo, prenunciando a reforma maior por vir.

No século XII surgiu o movimento iniciado por Pedro Valdo, de Lyon, na França. O movimento foi fundamentado na Bíblia. Valdo, rico comerciante da cidade, distribuiu sua fortuna e devotou-se ao evangelho. Com voto de pobreza, seus seguidores, os “Pobres Homens” de Lyon, viajavam e pregavam ao povo, denunciando os erros da igreja romana. Perseguido, seu movimento se refugiou em diferentes regiões da Europa. No século XVI, os Valdenses aderiram à Reforma calvinista. Hoje em dia são um ramo do protestantismo ainda existente na Itália.

John Cliff viveu e trabalhou na Universidade de Oxford, na Inglaterra, na segunda metade do século XIV. Ele discutia em sua época de quem era o senhorio sobre os homens, de Deus, ou do papa; se era de Deus, qual deveria ser o papel da igreja no contexto. Wyclif defendia a liberdade espiritual do justo, num "domínio baseado na graça". Defendia um “papado bíblico”, sem ouro nem prata, em uma vida de pobreza. "Cristo é a verdade", afirmou ele, "o papa é o princípio da falsidade". Wyclif opôs-se à maioria dos dogmas católicos e com isso prenunciou a Reforma por vir. Ao se opor à transubstanciação, ele foi afastado de Oxford. Buscou então pregar para a população do campo e das vilas, usando uma tradução bíblica do latim para o inglês que havia feito; criou então, por inspiração de Francisco de Assis, os lolardos (ou “resmungões”) sacerdotes pobres que saíam pregando pelas regiões inglesas. Morreu afastado de Oxford no final do século XIV.

Um ano antes da morte de Wyclif, o Reino da Boêmia se uniu em um casamento ao da Inglaterra e as Universidades de Praga e Oxford iniciaram um intercâmbio de estudantes. Através desse intercâmbio, Jan Hus (1373-1415), reitor na Universidade de Praga, tomou contato com a obra de Wyclif e adotou suas ideias, começando a criticar os abusos do poder do papado através da Capela de Belém, onde ministrava. Hus atacou inclusive a venda de indulgências de sua época. O movimento cresceu, gerou oposição de Roma, que determinou a excomunhão de Hus. Atendendo a um convite do Imperador, Hus foi ao Concílio de Constance, tendo sido preso, acusado de heresia, submetido à Inquisição e condenado. Não se retratando se suas ideias, ele foi executado na fogueira; o dia era 6 de julho de 1415. Tendo desempenhado um importante papel na história literária tcheca, hoje sua estátua pode ser vista em uma praça de Praga. Seus seguidores ficaram conhecidos como Hussitas. O movimento sobreviveu como igreja independente, a “Unitas Fratrum”, ou “Unidade dos Irmãos”, com os morávios, os precursores das modernas missões mundiais para expansão do evangelho, a fim de que ele alcance os confins da terra.

Consta que, antes de morrer, Hus (cujo significado em língua checa é “ganso”), teria dito algo como: “Hoje vocês assam um ganso na fogueira mas, daqui a cem anos, aparecerá um cisne que não poderá ser calado”. Se isto for verdade histórica, a frase foi profética, pois, no dia 31 de outubro de 1517, pouco mais de um século após Hus, Lutero divulgaria suas 95 teses na Universidade de Wittenberg, na Alemanha, no início da Reforma Protestante. O que Hus viu como um cisne, o papa que excomungou Lutero chamou de “um javali selvagem que devastava os jardins do Senhor”. Grande foi a devastação provocada pela Reforma no desvio cristão promovido por Roma e prenunciada por Wyclif, Hus e outros.

sexta-feira, 10 de julho de 2020

22. O EVENTO DA REFORMA

31 de outubro de 1517 foi o dia em que Martinho Lutero afixou suas 95 teses contra a venda de indulgências. As teses representavam um convite para o debate com seus alunos na Universidade de Wittenberg.

Como antecedentes da Reforma, lembramos inicialmente a ação do frade dominicano Johann Tetzel (1465-1519). O catolicismo defendia o dogma do purgatório, um lugar de tormento para onde as pessoas ia depois da morte, a fim de purgar seus pecados antes de sua ascenção para o céu. Tetzel vendia indulgências, ou seja, declarações escritas do papa para diminuir o tempo de permanência no purgatório. “Assim que a moeda cai no cofre, sobe a alma do purgatório” era o refrão da propaganda de Tetzel. As 95 teses de Lutero protestavam contra o abuso da venda dessas indulgências e contra a preocupação exagerada da igreja em relação à riqueza. Não foi uma série de declarações especialmente radicais, não contestavam a existência do purgatório ou o dogma das indulgências; no entanto, elas chegaram até o papa através do arcebispo local, gerando uma intensa reação no Catolicismo.

No século XVI, o clamor por “liberdade” era generalizado. Os camponeses clamavam por ela e não foi por acaso que aconteceram muitas guerras camponesas. Como havia muitas guerras, surgiram epidemias e pestes que dizimavam a população. As muitas mortes causavam medo. Naquele século também estava surgindo novo modelo econômico, o capitalismo incipiente; não se fazia mais riqueza a partir do trabalho na terra, mas com especulação financeira. Surgia, assim, o medo de se perder o pouco capital que se tinha.

Deus era a causa do maior medo e, para torná-lo favorável ao ser humano pecador, era necessário que se fizessem boas obras e se comprassem da Igreja indulgências, cujo valor substituía a penitência.

Desses medos e angústias participou Lutero. Por mais que se esforçasse para agradar a Deus, mais se descobria pecador, mais se sentia prisioneiro de seus temores. Lutero então descobriu que a justiça de Deus é diferente da justiça humana. Em Cristo, podemos estar na presença de Deus justificados pelo seu sacrifício vicário.

Após o evento, como consequência, Lutero queimou a bula papal que o ameaçava de excomunhão, o imperador do Sacro Império Carlos V convocou uma audiência na cidade de Worms, os aliados de Lutero o defenderam habilmente; Lutero compareceu pessoalmente à audiência, com a promessa de proteção. Ali ele disse: "Pela misericórdia de Deus, peço a vossa Majestade Imperial e vossos Ilustres Senhores, ou a qualquer um que tenha representatividade, que testifiquem e refutem meus erros, contradizendo-os com o Antigo e o Novo Testamentos. Estou pronto, se for melhor instruído, a me retratar de qualquer erro, e serei o primeiro a atirar meus escritos na fogueira."

A acusação não queria questionar razões, mas exigia retratação. Lutero respondeu: "Vossa Majestade Imperial e os Senhores Lordes exigem uma resposta simples. Aqui está ela, clara e direta. A não ser que, pelas Escrituras, eu esteja convicto do erro [...] e que minha consciência esteja cativa pela Palavra de Deus: não posso e não vou me retratar de nada, pois fazer isso contra a nossa consciência não é seguro nem é uma opção para nós. A esse respeito, tomo minha firme posição. Não posso fazer de outra forma. Ajudai-me, Deus. Amém."

As ideias de Lutero se espalharam por toda a Europa, impulsionadas pela imprensa recém-criada. Em muitos lugares, essas ideias encontraram ouvintes bem-dispostos. A evidente corrupção da Igreja Católica despertara em muitos o anseio por mudanças, e um renovado interesse pelo antigo conhecimento conduziu a uma redescoberta das Escrituras. 

23. LUTERO E LUTERANISMO

Como uma pessoa é salva? Em que repousa a autoridade religiosa? O que é Igreja? Qual a essência da vida cristã? Estas quatro perguntas existiam na mente de Lutero e de outros reformadores no início do século XVI.

Martim Lutero nasceu na Alemanha no final do século XV e seu pai pretendia torná-lo advogado, até que um raio o convenceu a ser sacerdote agostiniano. Dedicado à ordem e também aos estudos, começou a lecionar sobre a Bíblia em Wittenberg, onde descobriu, após muitas lutas internas e meditações, verdades nas Escrituras que confrontavam práticas católicas que vivia e praticava. Descobriu então que a justiça de Deus é a maneira pela qual a graça e a misericórdia de Deus nos justificam por meio da fé. Se a salvação vem somente por meio da fé em Cristo, a intercessão de sacerdotes é supérflua. A fé nasce e é alimentada pela Palavra de Deus, escrita e pregada, não necessitando de padres, missas, nem de orações aos santos. Para Lutero, isto fazia cair por terra a mediação da igreja de Roma.

Lutero deixou de lado a visão tradicional da igreja com uma hierarquia sagrada encabeçada pelo Papa e retornou à concepção inicial de comunidade cristã, em que todos os cristãos são sacerdotes chamados para oferecer sacrifícios espirituais a Deus. Ele substituiu o ofício de bispo por pastores, aboliu o celibato, contraindo ele mesmo casamento com Katherine von Bora. Ele também revisou a liturgia latina e a traduziu para o alemão, além da tradução da Bíblia. Os leigos passaram a receber a comunhão com pão e vinho e a ênfase nos cultos mudou da celebração da missa sacrificial para a pregação e o ensino da Palavra de Deus.

Lutero não lidou com o relacionamento entre a Igreja e o Estado, concordando com o controle da igreja pelo príncipe no seu território. O final da vida de Lutero não foi dos mais felizes, pois um de seus biógrafos diz que, na hora da sua morte, em 1546, Lutero era um "velho irritável, petulante, rabugento, desenfreado, e às vezes verdadeiramente grosseiro". Homem de temperamento rude e grosseiro, Lutero foi o instrumento utilizado por Deus para iniciar um movimento de reforma na sua Igreja neste mundo. Ele não pretendia criar uma nova denominação religiosa, tendo deixado expresso que não queria que ninguém fosse chamado de luterano, mas sim de cristão na acepção original da palavra. No entanto, com o desenrolar dos acontecimentos, criou-se a Igreja Luterana, que se tornou a religião de estado em grande parte do Império da Alemanha, espalhando-se pela Escandinávia. Lutero teve em Philip Melanchthon um sucessor e continuador da sua obra.

As quatro questões básicas deste texto inicialmente expostas foram respondidas por Lutero: a salvação vem pela fé, não pelas obras; a autoridade espiritual está na Palavra de Deus; a igreja é a comunidade de crentes cristãos, todos sacerdotes perante Deus; servir a Deus em qualquer vocação útil, leiga ou clerical, é a essência da vida cristã. O brado inicial foi dado por Lutero e outros prosseguiram o movimento de reforma, encontrando inclusive outras formas de organizar a Igreja cristã em suas doutrinas e práticas. As questões básicas, porém, continuam sendo seguidas por todos, mantendo uma unidade de fé, mesmo na diversidade de cores e matizes que o Protestantismo acabou por assumir.

24. ZUINGLIO E ANABATISMO

Existem sempre visões radicais em todos os movimentos de mudança ocorridos na história; a ala mais radical da Reforma surgida com Lutero foi o Anabatismo. Úlrico Zuinglio, em Zurique, na Suíça, tinha como ponto central de suas ideias reformadoras as Escrituras – e somente elas – como obrigatórias aos crentes, normatizando a vida de fé e prática. Para ele, a comunidade tinha a palavra final na interpretação das Escrituras, a “comunidade hermenêutica”. Com o apoio do Conselho da cidade, Zuinglio começou a reforma, trocando a missa católica pelo culto evangélico e eliminando símbolos tradicionais do catolicismo, como velas, estátuas, música e pinturas. No entanto, como dependia do apoio do Conselho, sua reforma não podia ser mais ampla, abrangendo outros aspectos, como gostariam seus seguidores. A recusa ao batismo de crianças por parte de seguidores, substituindo-o pelo batismo do convertido, provocou uma ruptura e a fuga do grupo mais extremado.

Três dos seus seguidores, Blaurock, Grebel e Mantz, decidiram se rebatizar. O fato teve profundas implicações políticas, porque, ao se rebatizarem, os praticantes estavam negando o poder estatal de decidir a religião dos súditos, afirmando que a fé é uma questão de foro íntimo e que ninguém pode decidir por qualquer pessoa a religião que irá seguir. Em uma época em que a Igreja Católica era um Estado, em que Lutero e Calvino estavam vinculados ao Estado seja para proteção ou para governo, os anabatistas passaram a defender a separação entre igreja e Estado, fato revolucionário.

Os anabatistas foram perseguidos por suas posições e fugiram de uma parte a outra da Europa, em busca de regiões onde reis os tolerassem. Desenvolveram a ética do trabalho, sendo exímios lavradores, forma encontrada para evitar que fossem constantemente expulsos, por causa dos lucros que traziam.

Outro aspecto foi a observância do princípio da não-violência, negando a pena de morte e até a morte por legítima defesa. As comunidades anabatistas recusam o serviço militar, o uso de armas, não apoiando ações bélicas e rejeitam a ideia de “guerra justa”.

Outro elemento no anabatismo é o estilo de vida simples. Afirmam eles que a pessoa deve viver com o mínimo para que tenha uma vida decente, sem se entregar ao luxo e ao consumismo. Entre os mais radicais estão os Amish, que se recusam a usar energia elétrica, telefone, carros, usam charretes e se vestem de forma simples, com roupas escuras e sem adornos. Outros, menos radicais, procuram não ter mais que um aparelho de TV na casa, compram somente o que é necessário e evitam coisas caras e dispendiosas.

Este modelo de vida é, muitas vezes, acompanhado de outro elemento: evitam gastar consigo mesmo para que possam ter mais para ajudar pessoas que realmente estão em necessidade.

Saindo de Zurique, os anabatistas encontraram refúgio na Morávia, sob a liderança em Jacob Hutter, Menno Simons e outros, dando este último o nome ao grupo anabatista mais importante atualmente, os Menonitas. No final do século XX, seus membros, espalhados pelo mundo, chegam a mais de meio milhão. Além disso, muitos grupos protestantes foram influenciados e adotaram um ou mais princípios pelos quais a primeira geração de radicais morreu.

“Anabatistas” significa “rebatizadores”, grupo que no início era uma voz chamando os reformadores moderados para combater em maior profundidade os fundamentos da antiga ordem romana. No entanto, faltava ao movimento coerência e não existia um corpo de doutrina ou organização unificada entre eles. Com o desenvolvimento, o movimento se caracterizou por ênfase no discipulado, no amor uns para com os outros, na visão congregacional da autoridade da Igreja e na insistência da separação entre igreja e estado. Muitos perderam a vida, no início do movimento, para que seus ideais atingissem até os nossos dias, com um grupo menor de participantes em relação aos demais, mas com influências que ainda hoje se fazem sentir neste Cristianismo tão dividido e materializado do século XXI.

25. CALVINO E CALVINISMO

A doutrina central de Lutero era a "justificação pela fé", enquanto que a de Calvino era a "soberania de Deus". Isto deve ter pesado na sua decisão de permanecer em Genebra e auxiliar William Farel após o convite-imposição que este lhe apresentou. Registrando o fato, Calvino escreveu sobre Farel: Ele "empurrou-me para o palco e me obrigou a 'entrar no jogo'".

João Calvino (nascido Jean Calvin, 1509-1564) foi um importante professor e teólogo cristão de nacionalidade francesa, que desempenhou um papel histórico fundamental no processo da Reforma Protestante. Até os 24 anos de idade, Calvino era católico, tendo se convertido ao protestantismo por volta de 1533. Foi perseguido na França e, em 1536 fugiu para Genebra, na Suíça, com passagem por Estrasburgo, onde Martin Brucer (um reformador que acabou por influenciar as vertentes luterana, calvinista e anglicana em suas doutrinas e práticas) foi uma influência importante sobre Calvino. Após a Universidade de Paris, de onde Calvino saíra com mestrado em humanidades, Calvino estudou direito em Orleans e Burgos. Após sua inesperada conversão, ele desistiu da carreira de estudioso dos clássicos, submetendo-se à vontade de Deus e identificando-se com a causa protestante. Forçado a deixar Paris, onde na época imperava o catolicismo, Calvino refugiou-se na Basileia, onde, em 1534, publicou a primeira edição das Institutas da Religião Cristã, sua maior contribuição para a definição inicial dogmática da Reforma Protestante.

Em Genebra, William Farel já havia iniciado o movimento de mudanças no catolicismo da cidade, fazendo cessar as missas e substituindo-as pelo culto, mas sabia que a Reforma precisaria de um administrador capaz para continuação do processo. O trabalho desenvolvido em dupla a partir de então passou a definir as características do Cristianismo reformado. Iniciado anteriormente em Zurique por Zuinglio, o movimento reformista espalhou-se pela Suíça de fala alemã, atingindo várias cidades até chegar a Genebra. As habilidades de organização e execução de Calvino capacitaram-no a dar sequência à obra. Já em Genebra, um ano após ter dado início a um projeto de disciplina que ia um pouco além do esperado pelas autoridades religiosas da cidade, o trabalho foi interrompido durante três anos por conflitos surgidos, quando a dupla de reformadores teve que deixar a cidade. Calvino foi então para Estrasburgo, onde desenvolveu um trabalho abençoado, além de ter-se casado com uma viúva com dois filhos, sua companheira até a morte.

Em Genebra, os apoiadores de Calvino recuperaram o governo na cidade e convocaram-no para retornar. Como forma de governo para a igreja, Calvino projetou quatro lideranças: pastor, mestre, presbítero e diácono. Do Consistório da cidade participavam 12 presbíteros, além de outros membros, cuja função era reger a moral da cidade, que rigidamente classificava ausências a culto, assim como bebidas, jogos e danças, como transgressões. Apesar de haver ainda oposição, o trabalho prosperou, atraindo exilados pela fé de vários lugares, tendo sido o local considerado como um refúgio para perseguidos, um exemplo de comunidade cristã e centro de treinamento ministerial. John Knox (mais tarde o organizador da Igreja Presbiteriana) chamou o trabalho em Genebra de "a mais perfeita escola de Cristo jamais vista na terra desde o tempo dos apóstolos".

O mesmo John Knox levou a Escócia a ser uma nação na qual o presbiterianismo calvinista tornou-se a religião oficial. Obrigado a fugir da Inglaterra por causa da perseguição promovida por Maria Tudor, filha de Henrique VIII, ele foi para o continente, onde reforçou a ideia de que os protestantes tinham o direito de resistir a qualquer governante católico que quisesse impedir o seu culto. De volta às Ilhas Britânicas, seu movimento levou o parlamento escocês a aceitar os artigos da fé cristã calvinista, abolindo o catolicismo romano, embora a rainha fosse católica. Tendo sido, por algum tempo, uma rainha ausente, Maria, ao retornar à Escócia, encontrou um país calvinista na sua formação religiosa e, embora os seus descendentes quisessem reverter a situação ao longo do tempo, a Escócia foi o berço do presbiterianismo. Quando Calvino morreu em 1564, deixou, além de uma Genebra reformada, seguidores ansiosos para continuarem "o jogo" no qual ele havia entrado em Genebra por toda a Europa e, pouco tempo após, pela América do Norte.

Salvação somente atingida através da fé; predestinação para a salvação, concedida por Deus somente para pessoas eleitas; natureza pecaminosa do ser humano; culto religioso realizado em locais simples e sem imagens e composto apenas por comentários bíblicos, sem cerimônias; celebração da Ceia do Senhor e do batismo: estas são as características básicas do Calvinismo, linha que, além de ter dado origem aos presbiterianos, influenciou muitos outros grupos e denominações protestantes. Calvino foi, realmente, o mais importante teólogo inicial do movimento protestante.

26. ANGLICANISMO

Se a reforma luterana começou em uma cela monástica, a anabatista numa reunião de louvor e a calvinista na mesa de um estudioso, a reforma inglesa se deu a partir de questões de estado, especificamente do problema da sucessão do trono real. O rei revoltou-se contra o Papa Clemente VII porque queria casar-se com Ana Bolena, buscando ter um descendente masculino que pudesse sucedê-lo no trono. Para isso, precisava anular seu casamento com Catarina de Aragão, que somente lhe havia dado uma filha chamada Maria; a anulação foi negada pelo bispo de Roma, que politicamente dependia do apoio do rei da Espanha, Carlos V, o qual era também o imperador do Sacro Império Romano Germânico e tio da rainha Catarina.  Henrique VIII considerava-se o guardião do dogma católico, pois, em 1521, o rei escreveu um texto de apoio aos sete sacramentos atacados por Lutero, recebendo por isso a honraria papal de “Defensor da Fé”, título ainda ostentado pelos monarcas ingleses nos dias de hoje.

De certa forma, a Inglaterra teve duas reformas: uma constitucional, sob o reinado de Henrique VIII, e outra teológica, sob influência dos puritanos, no reinado de Elizabeth I. Com Henrique VIII, nada mudou doutrinariamente: a Inglaterra simplesmente rejeitou a autoridade do papa de Roma. Tornando-se chefe da igreja anglicana, mas não sendo um sacerdote com formação teológica, Henrique delegou a responsabilidade de direção eclesiástica ao arcebispo de Canterbury, Thomas Cranmer. Somente duas mudanças de importância surgiram durante seu reinado: a supressão dos monastérios e a publicação de uma Bíblia inglesa para uso nas igrejas, a versão de Miles Tyndale retomada por Coverdale. Henrique VIII usou as propriedades monásticas confiscadas para encher os cofres reais e obter o apoio dos barões nobres que as assumiram; assim ele reduziu a oposição à sua política e conquistou novos aliados.

Eduardo VI, sucessor de Henrique e seu único filho varão legítimo, era uma frágil criança ao assumir o trono. Com ele, a Reforma Protestante progrediu muito mais do que com seu pai, graças à gestão de dois regentes. O processo foi interrompido com a morte do rei-adolescente e a ascensão ao trono de Maria, filha de Catarina e neta de Fernando e Isabel de Espanha, os Reis Católicos. Maria, a Sanguinária (alcunha dada à rainha por Foxe), anulou os atos de seu pai e de seu irmão, reatando as relações eclesiásticas com Roma. Seu governo causou a execução de cerca de 300 protestantes e a fuga de cerca de 800 para o continente europeu. John Foxe, um dos refugiados (acima mencionado), relatou esses fatos no “Livro dos Mártires”, publicado em 1571. Após curto reinado, assumiu Elizabeth I, filha de Ana Bolena, em cujo longo reinado a igreja anglicana definiu seu caráter distintivo como uma igreja em duas alas, uma católica e outra protestante, a chamada Via Média. O puritanismo, os pregadores da retidão pessoal e nacional, movimento surgido na igreja anglicana durante o final do reinado dos Tudors, desempenharia importante papel na Reforma Protestante ocorrida na Inglaterra.

Assim a Inglaterra, cujo início na fé cristã  remonta ao final do primeiro século, levado por cristãos que fugiam das perseguições; que teve a igreja cristã estabelecida inicialmente entre os celtas, os quais enviaram três bispos ao Concílio de Arless, em 314; que recebeu missionários enviados por Roma para as regiões anglo-saxônicas; que teve em John Wycliffe, no século XIV, um precursor da Reforma, ao propor mudanças no catolicismo da Inglaterra que só iriam se concretizar dois séculos depois; que ainda tinha seguidores do pré-reformador, os lolardos, no século XVI; essa mesma Inglaterra viu a Reforma Protestante chegar às suas terras de forma bastante diferenciada daquela que havia assumido no continente europeu.

27. TRENTO E A REAÇÃO CATÓLICA

Sobre o Catolicismo no final da Idade Média, Earl Cairns afirmou: "Com os olhos presos no passado, tanto clássico quanto pagão, e indiferentes às forças dinâmicas que estavam formando uma nova sociedade (a sociedade italiana, da qual o papado fazia parte), (ele) adotou uma forma de vida corrupta, sensual e imoral, embora culta e refinada".

Trento é uma cidade italiana, capital administrativa de província da região autônoma Trentino-Alto Ádige, com aproximadamente 116.000 habitantes atualmente. No século XVI, pertencendo ainda ao Império Áustro-Húngaro, na região do Tirol, a cidade foi cenário de um importante concílio da Igreja Católica, o Concílio Tridentino da Reforma Católica, ou da Contrarreforma protestante, com reuniões que aconteceram entre 1546 e 1563.

De início, a igreja não reagiu diante da ameaça protestante. Três décadas depois, percebendo a seriedade do movimento, o papa Paulo III convocou O Concílio e reformou a atividade do ofício papal. Em três ocasiões especiais, reuniu-se o Concílio de Trento, com forte representação italiana, tendo sido a Igreja coagida a perceber que a liderança, tanto do Papa como de cardeais, precisava cuidar das questões espirituais e deixar os interesses mundanos de lado. Era preciso acabar com o suborno de autoridades, o abuso das indulgências, a desobediência às leis eclesiásticas e a prostituição em Roma. Tudo o que a Reforma Protestante propôs foi rejeitado, principalmente a justificação pela fé e a salvação somente pela graça. Boas obras e a cooperação humana foram reforçadas como complemento da justificação do pecado e da salvação eterna. Papas e bispos como verdadeiros e únicos intérpretes da Bíblia, os sete sacramentos e o sacrifício da missa foram mantidos, além dos demais dogmas. Enfrentando a rebelião de quase metade da Europa, o catolicismo conseguir reduzir a onda protestante a tal ponto que, no final do século XVI, o protestantismo limitava-se aproximadamente ao terço norte da Europa, como acontece atualmente. Grande parte do continente europeu, na parte central e mediterrânea, manteve-se fiel a Roma. A grande expansão do Protestantismo somente aconteceria no Novo Mundo inicialmente, principalmente na América do Norte, espalhando-se posteriormente para o restante do continente americano, bem como atingindo a Ásia, África e o Novíssimo Mundo, a Oceania. Segundo Shelley, com relação ao resultado, "o trabalho do Concílio era medieval, apenas a ira era nova". Outros papas também participaram das reuniões, já que elas duraram 18 anos, como Júlio III, Paulo IV, Pio V, Gregório XIII e Sisto V.

Após o Concílio, guerras e conflitos entre católicos e protestantes se estenderam por décadas, culminando com a Guerra dos Trinta Anos, que dividiu a Europa e somente terminou em 1648, com a Paz de Vestfália e a demarcação dos territórios e fronteiras político-religiosas católicas e protestantes. A igreja contou com apoio importante para a recuperação de posições perdidas, principalmente a ordem jesuítica recém-criada, de Inácio de Loyola, soldados ousados que iriam onde o Papa os enviasse, "fosse de encontro aos turcos ou para o Novo Mundo, ou contra luteranos ou outros, fossem infiéis ou infiéis".

No início do movimento, Lutero e Calvino achavam que a Igreja Católica adotaria suas ideias e se reformaria. Em Trento, vários protestantes estiveram presentes durante a segunda série de sessões do Conselho, mas não houve nenhum resultado prático satisfatório: Roma havia fechado as portas definitivamente para qualquer abertura, enclausurando-se, avessa a qualquer reforma maior, ou mesmo a adequações que seriam necessárias, diante de uma situação político-social europeia em profundas e radicais mudanças.

28. PURITANISMO

Movimento de reforma religiosa surgido dentro da Igreja Anglicana na segunda metade do século XVI, o puritanismo visava à pureza da igreja, do indivíduo e da sociedade. Apesar de Henrique VIII ter iniciado a reforma, a Igreja da Inglaterra manteve muito da liturgia e do ritual do catolicismo e as lentas mudanças deixavam muito a desejar. Ao morrer, o rei deixou uma igreja que pouco diferia da católica, a não ser pelo fato de não obedecer mais a Roma.

No reinado do adolescente Eduardo VI (1547-1553), através de dois regentes, aconteceram mais mudanças e foi introduzido o primeiro livro de orações em inglês. Sob Maria Tudor (1553-1558), porém, parte dos clérigos e dos protestantes foi executada e um grupo maior fugiu para o continente europeu, quando a rainha quis promover uma volta ao catolicismo romano.

O puritanismo se levantava contra a permanência de vestígios de tradição católica nas doutrinas e na liturgia da Igreja da Inglaterra. Além das vestes litúrgicas, os puritanos se opunham à guarda dos dias santos, à absolvição clerical, ao sinal da cruz, à presença de padrinhos no batismo, ao ajoelhar-se na hora da ceia, além de outros elementos que eles queriam afastar, chamados de “trapos do papismo”. Com o tempo, formaram-se três grupos dentro do movimento puritano. Os puritanos episcopais não pretendiam sair da Igreja Anglicana, ambicionando uma abrangente reforma interna, que nunca aconteceu. Os puritanos presbiterianos, influenciados por Calvino, queriam na Inglaterra uma igreja com governo semelhante à que se organizara na Escócia. Os puritanos congregacionais buscavam um governo mais democrático na igreja, no qual a congregação resolvesse seus próprios problemas, numa postura mais radical de influência anabatista. Robert Browne, teórico do último grupo, sustentava que os crentes deviam se unir a Cristo e uns aos outros por um pacto voluntário; que os ministros deviam ser escolhidos pelos membros; e que nenhuma congregação devia ter autoridade sobre a outra; opunha-se, portanto, ao relacionamento da Igreja com o Estado.  

No campo religioso, com a morte de Maria e a coroação de Elizabeth, o grupo que fugira para o continente europeu voltou para a Inglaterra, após tomar contato e receber influência dos reformadores e de suas ideias, principalmente na Alemanha e na Suíça. Durante o reinado de Elizabeth I, uma aparente paz prevaleceu na vida religiosa inglesa, mas sob a superfície continuava uma luta sobre o tipo de igreja desejado. No aspecto econômico e social, a Inglaterra começava a era da industrialização, com grandes deslocamentos de pessoas do campo para a cidade, em um clima de instabilidade. Como as reformas introduzidas pela rainha tendiam a permanecer entre o catolicismo e o protestantismo, na chamada “onda média”, começou a surgir entre os puritanos o separatismo, que formou congregações independentes, sob a liderança de algum ministro anglicano, graduado em teologia, mas com tendências reformadoras. Como a igreja oficial da Inglaterra era a Anglicana, pressões e perseguições começaram a acontecer sobre todos os dissidentes, razão que levou muitos deles a fugirem da Inglaterra, buscando refúgio principalmente na Holanda. Uma dessas congregações formou-se na localidade de Scrooby, em Yorkshire, sob a liderança de John Robinson, a qual refugiou-se em Leyden, na Holanda, no início do século XVII; William Bradford (1590-1657), famoso a partir de Plymouth, na Nova Inglaterra, fazia parte desse grupo. Foram os membros desse grupo que finalmente emigraram para os Estados Unidos em 1620, no navio Mayflower. Antes do desembarque em Plymouth, os imigrantes aderiram ao Pacto de Mayflower. Outras levas se seguiram e, por volta de 1640, o empreendimento da Baía de Massachusetts já congregava cerca de dez mil pessoas.

Na Inglaterra, os acontecimentos históricos envolvendo os puritanos se precipitaram. Tiago I (1603-1625), sucessor dos Tudors, iniciou a dinastia dos Stuarts na Inglaterra. Ele  havia convivido com o calvinismo na Escócia, fato que encheu de esperanças os puritanos, os quais  lhe apresentaram a Petição Milenária, que foi totalmente rejeitada na Conferência de Hampton Court (1604), tendo aceitado apenas a tradução e impressão de uma nova  versão autorizada da Bíblia, a “King James version”. A política de repressão contra os puritanos foi mantida no reinado de Carlos I (1625-1649), o que levou um grande grupo não-separatista a ir para Massachusetts na década de 1630. No final do seu reinado, o soberano entrou em guerra contra os presbiterianos escoceses e os puritanos ingleses. Estes eram maioria no Parlamento e convocaram a Assembleia de Westminster (1643-49), que elaborou importantes documentos da fé reformada. Oliver Cromwell foi o líder puritano das forças parlamentares que derrotaram o rei Carlos I, tendo se tornado “Lorde Protetor” da Inglaterra. Durante o Protetorado (1649-1658), a Igreja da Inglaterra foi inicialmente presbiteriana e depois congregacional. Todavia, as rivalidades religiosas levaram ao restabelecimento da monarquia sob Carlos II (1660-1685), que expulsou cerca mais de mil ministros puritanos da Igreja da Inglaterra em 1662, fato que marcou o fim do movimento puritano no país.  

Abria-se, no entanto, para puritanos e outros grupos religiosos, o cenário da Nova Inglaterra.

ÍNDICE

Introdução 1.        O século apostólico 2.        Expansão, perseguição e defesa da fé 3.        Acusações e perseguição 4.        ...